segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Augustus Nicodemus Lopes

CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (18)

CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (18)

Os Valores da Ética
“Como o homem imagina em sua alma, assim ele é” (Provérbios 23.7).
Esta passagem bíblica acima reflete uma verdade fundamental da vida e da existência: nós somos e agimos de acordo com aquilo em que acreditamos. Este ponto é fundamental para podermos entender a principal diferença entre a maneira cristã de ver o mundo e outras cosmovisões, em particular, no que tange à ética ou à tomada de decisões.
Todos nós tomamos, diariamente, dezenas de decisões, resolvendo aquilo que tem a ver com nossa vida e a de nossos semelhantes.
Ninguém faz isso no vácuo.
Antigamente pensava-se que era possível pronunciar-se sobre um determinado assunto de forma inteiramente objetiva, isto é, isenta de quaisquer preconcepções. Hoje, ficou mais claro aquilo que os antigos já sabiam, antes da chegada do cientificismo naturalista e racionalista, que é impossível entendermos a realidade e nos expressarmos sobre ela sem sermos influenciados por aquilo em que cremos.
Quando elegemos uma determinada solução em detrimento de outra, o fazemos baseados num padrão, num conjunto de valores e noções de é certo ou errado. É isso que chamamos de ética: o conjunto de valores, ou padrões, a partir dos quais uma pessoa entende o que seja certo ou errado e toma decisões.
Cada um de nós tem um sistema de valores interno que consulta no processo de fazer escolhas. Nem sempre estamos conscientes dos valores que compõem esse sistema, mas eles estão lá, influenciando decisivamente nossas opções.
Os estudiosos do assunto geralmente agrupam as alternativas éticas de acordo com o princípio orientador fundamental delas. As chamadas éticas humanísticas tomam o ser humano como seu princípio orientador, seguindo o axioma de Protágoras, "o homem é a medida de todas as coisas". Entre elas temos o hedonismo, o qual ensina que o certo é aquilo que é agradável. Frequentemente somos motivados em nossas decisões pela busca secreta do prazer. O individualismo e o materialismo modernos são formas atuais de hedonismo.
Já o utilitarismo tem como princípio orientador o que for útil para o maior número de pessoas. O nazismo, dizimando milhares de judeus em nome do que era útil, demonstrou que na falta de quem decida mais exatamente o sentido de "útil", tal princípio orientador acaba por justificar os interesses de poderosos inescrupulosos e o egoísmo dos indivíduos.
O existencialismo, por sua vez, defende que o certo e o errado são relativos à perspectiva do indivíduo e que não existem valores morais ou espirituais absolutos. Seu principio orientador garante que o certo é ter uma experiência, é agir — o errado é vegetar, ficar inerte. O existencialismo é o sistema ético dominante na sociedade moderna, que tende a validar eticamente atitudes tomadas com base na experiência individual.
A ética naturalística toma como base o processo e as leis da natureza. O certo é o natural — a natureza nos dá o padrão a ser seguido. A natureza, numa primeira observação, ensina que somente os mais aptos sobrevivem e que os fracos, doentes, velhos e debilitados tendem a cair e desaparecer na medida em que a natureza evolui. Logo, tudo o que contribuir para a seleção do mais forte e a sobrevivência do mais apto é certo. Numa sociedade cuja elite intelectual e a mídia estão dominadas pela visão do evolucionismo darwinista não foi difícil para esse tipo de ética encontrar lugar. Cresce a aceitação pública do aborto (em caso de fetos deficientes) e da eutanásia (elimina doentes, velhos e inválidos). Não são poucos os historiadores que nos alertam que a busca da raça perfeita pelo nazismo, à custa da eliminação das raças inferiores, partiu da visão evolucionista.
Os cristãos entendem que éticas baseadas exclusivamente no homem e na natureza são inadequadas porque não fornecem base sólida para justificar a misericórdia, o perdão, o amor e a preservação da vida. Além disto, estão em constante mudança e não têm como oferecer paradigma duradouro e sólido. E mais, tanto o homem quanto a natureza, como os temos hoje, estão profundamente afetados pelos efeitos da entrada do pecado no mundo. Eles não podem nos servir de referencial ético.
A ética cristã, por sua vez, parte de diversos pressupostos associados ao Cristianismo histórico. Tem como fundamento principal a existência de um único Deus, criador dos céus e da Terra. Vê o homem não como fruto de um processo natural evolutivo (o que o eximiria de responsabilidades morais), mas como criação de Deus, ao qual é responsável moralmente.
Entende que o homem pecou, afastando-se de Deus. Como tal, não é moralmente neutro, mas naturalmente inclinado a tomar decisões movidas, acima de tudo, pela cobiça e pelo egoísmo (por natureza, segue uma ética humanística ou naturalística). A ética cristã acredita, porém, na possibilidade de mudança de orientação mediante mudança da natureza humana pela intervenção sobrenatural de Deus no coração da pessoa, mediante a fé em Jesus Cristo.
Na visão da ética cristã, a vontade de Deus para a humanidade encontra-se na Bíblia. Ela revela os padrões morais de Deus, como encontramos nos 10 mandamentos e no Sermão do Monte. Mais que isso, ela nos revela o que Deus fez para que o homem pudesse vir a obedecê-lo.
A ética cristã, portanto, é o conjunto de valores morais baseados nas Escrituras Sagradas, pelo qual o homem deve regular sua conduta nesse mundo, diante de Deus, do próximo e de si mesmo. Entidades de ensino confessionais que professam o cristianismo histórico deveriam entender os valores e as crenças que estão por detrás dos processos decisórios e dos alvos da instituição e guiar seus labores acadêmicos e administrativos pelos valores do Cristianismo.
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segunda-feira, fevereiro 12, 2018

Augustus Nicodemus Lopes

CRISTIANISMO E UNIVERSIDADE (17)

CRISTIANISMO E UNIVERSIDADE (17)


A Questão Fundamental

A melhor maneira de entender corretamente uma situação ou um problema é reduzi-lo aos seus pontos básicos e essenciais. É fazer as perguntas corretas em vez de nos perdermos em discussões periféricas e sobre pontos secundários. Quero trazer esse princípio para o antigo debate acadêmico acerca da vida, do universo e do ser humano, que é o debate acerca das origens de todas as coisas. Todos nós teríamos um melhor proveito e entenderíamos melhor esse debate se pudéssemos reduzir as questões e pontos polêmicos a um denominador comum, a uma ou duas perguntas que representassem o fulcro da questão.

Acredito que em vez de ficarmos discutindo a idade da terra, o processo pelo qual a seleção natural operou, em que medida Deus colaborou ou não com esse processo, deveríamos nos concentrar na questão que é realmente fundamental: a natureza é tudo que existe? Ela, por si mesma, pode explicar o surgimento e o funcionamento de todas as coisas? A vida surgiu por meio de processos naturais, não direcionados e sem um propósito?
Se a resposta for positiva, então o universo deve ser visto como um sistema fechado onde todas as coisas surgiram e se explicam em termos de causa e efeito naturais e acontecidos ao acaso. E nesse caso, as ciências deveriam aceitar apenas teorias naturalistas, e rejeitar a priori aquelas que sugerem a interferência de causas metafísicas, inteligentes e sobrenaturais para a realidade.
Se, porém, considerarmos que a natureza não é tudo que existe – e essa é a crença de 90% da população mundial, haja vista a pequena proporção de ateus nesse mundo, não deveriam as ciências considerar quaisquer teorias que explicassem de forma adequada a realidade, “até mesmo uma que invoque a ação de um ser inteligente?”, pergunta Nancy Pearcey na apresentação do livro As Perguntas Certas de Phil Johnson (2004).
O retorno ao ponto mais fundamental desse assunto poderia nos levar a fazer as perguntas certas e estar abertos para respostas plausíveis e coerentes com a crença na existência de um Deus criador de todas as coisas.
No fundo, a questão das origens, da vida, das ciências, se resume numa decisão entre duas maneiras fundamentais de se entender a realidade. Foi a matéria que deu origem à inteligência, ou foi a inteligência que deu origem à matéria? De um lado, temos a visão que enxerga o mundo e tudo que nele existe como o resultado de um processo longo e cego, sem propósito definido, que se encaminha pela seleção natural para um destino imprevisível. Por meio deste processo, a matéria produziu vida inteligente. Do outro lado, há a visão de que o universo e as coisas que nele se contém são o resultado da ação inteligente e proposital de um Deus pessoal, todo-poderoso e sábio. Ele é a inteligência por detrás do surgimento do mundo material. Não é importante e essencial saber como ele operacionalizou o mundo e como ele o desenvolve. O importante é que, partindo do pressuposto que a natureza não é tudo que existe, essa visão está aberta para teorias e hipóteses que levam Deus em conta na pesquisa e no estudo. Essa visão de que a natureza não é tudo que existe nos coloca diante das questões mais importantes da existência: quem somos, de onde viemos, o que estamos fazendo aqui e para onde vamos, questões que precisam ser respondidas à luz da existência de Deus.
Instituições de ensino confessionais, que se guiam pela visão cristã de mundo, não deveriam adotar uma visão naturalista de mundo, reducionista em sua essência, que se fecha para pesquisas e estudos que levam em conta o transcendente e o metafísico. Com competência e abertura, deveriam guiar seu labor acadêmico sempre levando em conta os valores da fé e da visão cristã de mundo.

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segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Augustus Nicodemus Lopes

CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (16)

CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (16)

O Mundo Faz Sentido?


Há caminho que parece direito ao homem, mas afinal são caminhos de morte” (Provérbios 16.25).

Esta afirmação do sábio Salomão, rei de Israel e famoso pesquisador judeu da antiguidade reflete a constatação feita por ele de que muitos, nesta vida, não encontram sentido ou significado para sua existência e nem razão de ser para as coisas, e que assim acabam tomando decisões e seguindo rumos que terminam em sua própria ruína.

A questão se existe sentido ou significado na existência é muito antiga. As duas posturas geralmente tem sido estas: por um lado, os que acreditam na existência de um Deus poderoso e bom que tudo criou com um plano e um objetivo, e que orienta o mundo e a humanidade de acordo com ele. Desta perspectiva, existe uma finalidade última e maior para cada pessoa, cada evento e cada circunstância, embora nem sempre seja claramente perceptível. Uma versão não religiosa dessa visão é daqueles que acreditam em destino, sorte e azar, como forças impessoais que guiam o curso da história e dos indivíduos. Do outro lado, há os que acreditam que as coisas acontecem ao mero acaso, num redemoinho de eventos desconectados entre si, num mundo regido por leis naturais cegas, impessoais e sem qualquer propósito final.

Esta última postura tem influenciado grandemente a mentalidade e a maneira de ver o mundo da nossa geração, criando, entre outras coisas, um vácuo de sentido e a fragmentação da realidade. Aliás, uma das bandeiras do famoso intelectual francês Edgar Morin é a fragmentação do conhecimento na educação. Segundo entrevista concedida por ele em 2003,
... o sistema educativo fragmenta a realidade, simplifica o complexo, separa o que é inseparável, ignora a multiplicidade e a diversidade... As disciplinas como estão estruturadas só servem para isolar os objetos do seu meio e isolar partes de um todo. Eliminam a desordem e as contradições existentes, para dar uma falsa sensação de arrumação. A educação deveria romper com isso mostrando as correlações entre os saberes, a complexidade da vida e dos problemas que hoje existem.
Concordamos totalmente com a avaliação de Morin. E gostaríamos de ir mais além e dizer que, em nossa opinião, a fragmentação que experimentamos na educação é mero reflexo da fragmentação da realidade que permeia a mentalidade do homem moderno, a qual, por sua vez, tem origem no conceito amplamente difundido pelo cientificismo moderno e por alguns ramos da filosofia de que o mundo não tem sentido.

Começando pelos filósofos epicureus até aos defensores do niilismo em nossos dias, sempre houve quem defendesse que vivemos num mundo governado pelo acaso, onde as coisas acontecem sem qualquer razão aparente ou real, num redemoinho constante de eventos totalmente desconectados, onde o acaso reina soberano.

Hoje, com o apoio de muitos cientistas que entendem que a ciência já provou que o universo é um sistema fechado de causas e efeitos, governados por leis cegas e mecânicas, a ideia de que existe significado e sentido na história, na realidade e consequentemente para a existência, acabou ficando relevada aos círculos religiosos, onde prevalece a crença em um Deus que criou todas as coisas e que conduz sua criação de acordo com um propósito bom, embora muitas vezes imperceptível a olho nu.
Todavia, uma leitura desprovida de despreocupações quanto às implicações de admitir que existe sentido na realidade – entre elas, a existência de um Deus – poderá nos levar a ver que existem traços de propósito e sentido em tudo que nos rodeia e toca. O materialismo produz uma visão de mundo reducionista, que restringe a existência humana a meras trocas químicas de átomos ao acaso, fechados num universo onde não razão para nossa existência e nem sentido para a vida. Desta forma, nos defrauda de privilégios que se encontram enraizados no mais profundo de nosso ser, e que clamam por serem libertados, como o apreciar o belo, encontrar realização na transcendência, fazer o bem, amar sem querer nada em troca e ter satisfação em aprender e descobrir pelo que isto significa em si.

No fundo, o que está em jogo é a existência de Deus ou não, e que tipo de Deus existe. Os que não querem acreditar que Deus exista, terão necessariamente de optar pela visão reducionista e niilista de realidade e se conformar a se verem como meros subprodutos de um processo cego inexorável que caminha para lugar nenhum, onde não existe misericórdia, perdão e bondade e qualquer sentido para a vida.

Por outro lado, crer na existência de um Deus poderoso e bondoso, que se interessa por nós, longe de nos alienar da realidade, nos dá a perspectiva necessária para reconhecer que ela faz sentido e que tem um propósito. E desta maneira poderemos encontrar aquele fio da meada que, como um tema transversal, dá coesão e unidade à realidade e consequentemente à educação.
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terça-feira, janeiro 30, 2018

Augustus Nicodemus Lopes

CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (15)

CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (15)

O desafio da Academia para os jovens cristãos


Os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Romanos 1.19).
Considerando as últimas estatísticas sobre o perfil religioso do brasileiro, podemos supor que um grande número de jovens cristãos entra nas universidades a cada novo vestibular. Os evangélicos representam mais de 25% da população brasileira e a igreja evangélica no Brasil é conhecida no exterior por ser uma igreja jovem, com um grande número de moços que professam a fé em Jesus Cristo.
Todavia, os anos de experiência na academia, em contato com os jovens e seus problemas, me ensinaram que muitos deles são abalados em sua fé durante o tempo da universidade. Eu não tenho os números desta constatação aqui no Brasil, mas tenho os números de uma pesquisa feita nos Estados Unidos pelo renomado Instituto Barna (Novembro de 2011) entre jovens que nasceram em lares cristãos e que deixaram de frequentar as suas igrejas. Guardadas algumas proporções, acredito que estes números refletem de maneira geral a realidade brasileira.
De acordo com a pesquisa, um de cada nove alunos perdem a fé quando entram na universidade, e se tornam ateus ou agnósticos. Quatro de cada dez deixam de frequentar igreja, embora ainda se considerem cristãos. Dois de dez assumem uma frequência irregular, incertos de como relacionar sua fé com a sociedade e o mundo. E três de cada dez jovens criados na igreja permanecem firmes na sua fé durante a universidade.
A pesquisa Barna identificou alguns fatores que contribuíram para que somente 30% dos jovens permanecessem firmes em suas convicções. Apenas uma pequena minoria de jovens cristãos havia sido ensinada a pensar sobre questões de fé, vocação e cultura. Menos de um em cada cinco tinha alguma ideia de como a Bíblia deveria informar os seus interesses escolares e profissionais. E a maioria não tinha mentores adultos ou amizades significativas com os cristãos mais velhos, que pudessem orientá-los através das inevitáveis perguntas que surgem durante o curso de seus estudos.
Em outras palavras, de acordo com o Instituto Barna o ambiente universitário não costuma causar a desconexão dos jovens cristãos para com o Cristianismo, apenas expõe o problema da fé rasa de muitos jovens discípulos. Muitos deles já haviam se desconectado emocionalmente do Cristianismo antes dos 16 anos de idade. Quando entram na universidade, a pressão dos colegas, a influência de professores ateus ou agnósticos e o ambiente geral da academia influenciado pelo naturalismo filosófico terminam por sepultar o que antes já era uma fé moribunda.
Jovens cristão entrando na universidade deveriam estar preparados para enfrentar os desafios que a incredulidade generalizada representa para as suas convicções. O que torna este desafio tão grande é que a incredulidade vem, muitas vezes, travestida de ciência. O jovem cristão deveria ficar consciente dos limites da ciência – ela se pronuncia sobre a realidade visível e mensurável mas não pode definir os limites da realidade. O materialismo que hoje é o pressuposto maior de muitos que fazem a ciência sempre produzirá modelos reducionistas da realidade. Ele deveria lembrar também que o problema não é a ciência, mas a filosofia materialista e naturalista que domina a academia hoje – ideologia esta oriunda do Iluminismo e do racionalismo. Conforme já vimos em outras postagens dessa série, diversos dos ramos da moderna ciência tiveram como fundadores ou divulgadores cientistas cristãos como Louis Pasteur, Isaac Newton, Johannes Kepler e Robert Boyle, para mencionar uns poucos.
Outro ponto a lembrar é que sempre houve cientistas cristãos de renome – embora representando uma minoria dentro da academia moderna – que não viram conflito entre sua fé e sua labuta científica. Entre eles, vários ganhadores de prêmios Nobel, como por exemplo:
Max Planck (1858-1947), ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1919. “Desde a infância a fé firme e inabalável no Todo Poderoso e Todo Bondoso tem profundas raízes em mim. Decerto Seus caminhos não são nossos caminhos; mas a confiança Nele nos ajuda a vencer as provações mais difíceis.”
Albert Einstein (1879-1955), ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1921. “A todo cientista minucioso deve ser natural algum tipo de sentimento religioso, pois não consegue supor que as dependências extremamente sutis por ele vislumbradas tenham sido pensadas pela primeira vez por ele. No universo incompreensível revela-se uma razão ilimitada.”
Werner Heisenberg (1901-1976), ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1932. “O primeiro gole do copo das ciências naturais o torna ateu; mas no fundo do copo Deus o aguarda.”
Nevill Mott (1905-1996), ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1977. “Os milagres da história humana são aqueles em que Deus falou aos homens. O supremo milagre para os cristãos é a ressurreição. Alguma coisa aconteceu àqueles poucos homens que conheciam Jesus que os levou a acreditar que Jesus estava vivo, com tal intensidade e convicção que esta fé permanece a base da igreja cristã dois mil anos depois.”
Arthur L. Schawlow (1921-1999), ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1981. “... eu encontro uma necessidade por Deus no universo e em minha própria vida... Somos afortunados em termos a Bíblia, e especialmente o Novo Testamento, que nos fala de Deus em termos humanos muito acessíveis, embora também nos deixe algumas coisas difíceis de entender.”
William Daniel Phillips (1948-), ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1997. “Muitos cientistas são também pessoas com uma fé religiosa bastante convencional. Eu, um físico, sou um exemplo. Creio em Deus como Criador e como Amigo. Isto é, creio que Deus é pessoal e interage conosco.”
Para os cristãos, Deus é a melhor explicação para determinados aspectos da nossa vida e da realidade que nos cerca, tais como a origem do mundo e da vida e da inteligência, o propósito e a intenção (design) que se percebe na natureza, a complexidade da realidade, a existência de ordem e coerência no universo, a realidade da moralidade, ética e valores humanos. Ele é a melhor resposta para nosso anseio por perdão. É assim que pensa Arthur Holly Compton (1892-1962), ganhador do Prêmio Nobel de Física de 1927. “Para mim, a fé começa com a constatação de que uma inteligência suprema chamou o universo à existência e criou o homem. Não me é difícil crer isso, pois é inegável que onde há um plano, há também inteligência - um universo ordenado e em desdobramento atesta a verdade da declaração mais poderosa que jamais foi proferida: 'No princípio Deus criou'.” Na mesma linha vai outro vencedor do Nobel de Física de 1974, Antony Hewish (1924-): “Eu creio em Deus. Não faz o menor sentido para mim supor que o universo e nossa existência são apenas um acidente cósmico, que a vida emergiu por processos aleatórios em um ambiente que apenas por acaso tinha as propriedades certas.”
Atualmente há muitos cientistas de renome que professam acreditar no Deus da Bíblia, como Francis Collins, que durante 15 anos foi diretor do projeto Genoma, que mapeou o DNA humano em 2001. Alvo de críticas de seus colegas, cuja maioria negava a existência de Deus, Collins lançou como resposta, em 2006 nos Estados Unidos, o livro A Linguagem de Deus, com o subtítulo, “Um cientista apresenta evidências para a fé”. Nas quase 300 páginas da obra, o biólogo conta como deixou de ser ateu para se tornar cristão protestante aos 27 anos e narra as dificuldades que enfrentou no meio acadêmico ao revelar sua fé.
Por fim, muitos dos que tentam desconstruir a fé em Deus em nome do cientificismo e do conhecimento não têm nada melhor para colocar no lugar.
Termino este capítulo numa nota positiva, todavia. Nestes anos de contato com a academia vi também casos de jovens que encontraram a Deus na universidade. Na grande maioria dos casos, esta conversão se deu através de colegas cristãos ou do interesse despertado pela leitura da Bíblia. O ideal das universidades confessionais é torna-las em um ambiente onde fé e ciência podem coexistir e evitar que se tornem um cemitério para as convicções cristãs.


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segunda-feira, janeiro 22, 2018

Augustus Nicodemus Lopes

CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (14)

CRISTIANISMO NA UNIVERSIDADE (14) 

Universidade, Educação e Corrupção

Um dos temas que tem dominado o cenário brasileiro em anos recentes é a questão da corrupção.[1] O termo tem sido usado pela mídia e população em geral para se referir ao desvio de dinheiro público, irregularidades graves no emprego de verbas governamentais, desvio de funções para vantagens pessoais por parte de servidores públicos, falseamento da verdade para ganhos ilícitos, acordos subterrâneos e pactos ocultos, lavagem de dinheiro, tráfico de influência e outras atitudes e atividades ilegais, imorais e injustas.
Neste cenário, é importante destacar o entendimento cristão quanto às causas e consequências da corrupção, bem como as atitudes possíveis visando a combatê-la.
O sentido próprio do termo “corrupção” é deterioração ou apodrecimento. Os sentidos secundários derivam dessa ideia original. Toda vez que alguém deixa de cumprir o seu dever estabelecido diante de pessoas, instituições e mesmo ideais - por interesse próprio ou de terceiros - ocorre a corrupção.
Quase sempre associamos a corrupção aos ambientes estatais. Todavia, a corrupção ocorre também na esfera particular. Há práticas corruptas ao nosso redor, inclusive em nossas próprias ações. Por exemplo: existência de “caixa dois” em empresas, uso de pessoas como “laranjas” em negócios irregulares, compra e venda de produtos pirateados, uso de “softwares” baixados sem permissão dos seus proprietários, pedido e/ou concessão de notas em atividades escolares, com base em amizades ou outra forma de relacionamento. Por isso, o conhecido “jeitinho” brasileiro é, numa análise objetiva e séria, simplesmente corrupção.
A corrupção pode parecer ter um lado bom, especialmente para os aparentemente “beneficiados” por ela. Todavia, não podemos fechar os olhos para o grande mal que traz. A corrupção é fator de injustiça social, porque tira os direitos de muitos, impede o desenvolvimento justo e equânime dos cidadãos, produz um efeito cascata que começa no topo e corrompe a população como um todo, anestesia a consciência, afronta a lei e promove a impunidade. Também frustra a motivação dos que buscam as recompensas materiais dos meios legítimos de conduta, visto o enriquecimento questionável e rápido de alguns.
Além disso, não raramente, a rede de ações corruptas se vale de atitudes violentas para acobertar suas mazelas. Portanto, nada há que realmente justifique a corrupção.
Geralmente as fragilidades da estrutura político-jurídico-financeira são responsabilizadas como a causa da corrupção estatal. Embora existam causas externas para a corrupção, não se pode negar que o problema reside, em última análise, no coração das pessoas. A corrupção é vista pela fé reformada como tendo origem primariamente no coração dos homens. A Bíblia afirma que não há sequer uma pessoa justa neste mundo. “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3.23). Jesus Cristo disse que é do coração das pessoas que procedem “maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mateus 15.19-20). Quando a causa é identificada, há condições de se buscar o remédio adequado.
Aqui se percebe a insuficiência de éticas humanistas reducionistas, que analisam apenas aspectos sociológicos e políticos da corrupção. Como resultado, as propostas de “redenção” contemplam apenas medidas repressivas, melhorias na educação, uma melhor legislação, as propostas de determinado partido político ou candidato. Tais medidas mesmo sendo necessárias e boas, deixam de contemplar a dimensão pessoal do problema: egoísmo, maldade, avareza, inveja e cobiça. O protestantismo reformado prega uma conversão interior dos governantes e dos governados a Deus e conclama que todos se arrependam do mal e pratiquem obras de justiça.
Por que, apesar de todos os esforços, a corrupção continua e se fortalece? Podemos pensar em várias respostas para esta indagação pertinente. A primeira é a sua banalização. Existe hoje maior divulgação dos casos de corrupção e da impunidade dos corruptos que no passado. Ao que parece, isto tem levado a sociedade a certo grau de indiferença quanto à sua gravidade. Como consequência prática, a luta contra esse mal chega a parecer um trabalho inútil.
Em segundo, existe uma sensação pessoal de culpa, a qual leva à cumplicidade e, portanto, ao silêncio. Apesar das pessoas condenarem os políticos e empresários corruptos, muitas delas também praticam a corrupção ao nível pessoal, como transgredindo as leis dos direitos autorais, usando de suborno, driblando a legislação tributária, entre outros possíveis exemplos.
Pelas causas acima, a corrupção acaba sendo vista e consagrada como “um mal sem remédio”. Isto favorece a sua prática, alimenta os males que ela gera, conserva a impunidade e fomenta a permanência desse nocivo tipo de atividade.
Apesar de estar tão profundamente enraizada no ser humano e na sociedade, a corrupção tem sido combatida em todas as épocas. Segundo a visão cristã de mundo, a razão pela qual os seres humanos não conseguem conviver tranquila e passivamente com a corrupção é que foram criados à imagem de Deus e que Deus ainda age neste mundo. Esta ação de Deus no mundo em geral é chamada de graça comum (concedida a todos). Segundo este conceito, Deus abençoa a humanidade em geral com virtudes e qualidades, independentemente das convicções religiosas das pessoas. Além disto, Deus instituiu os governos não somente para promover a justiça e o bem comum, mas também para punir os malfeitores e os corruptos (Romanos 13).
No Brasil, os principais órgãos responsáveis pelo combate à corrupção estatal, em todos os aspectos, são o Tribunal de Contas da União (TCU) - principal órgão de fiscalização do dinheiro e dos bens públicos, e a Controladoria Geral da União (CGU), órgão que responde pelo Brasil perante a Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção e, com exposição recente mais ampla, o Conselho Nacional de Justiça (CJN), que aflorou o fato de que, infelizmente, nem mesmos os nossos juízes estão imunes à corrupção e seus efeitos danosos.
O combate à corrupção, todavia, cabe, também, à população. A sociedade deve agir e cobrar medidas públicas contra a corrupção. É preciso reafirmar o repúdio à prática, enfatizar a necessidade de transparência nas contas públicas, apoiar as iniciativas civis no combate aos desmandos e promover a ética no trato das questões públicas. Na esfera eclesiástica, onde caberia estar o exemplo, é preciso também repudiar as práticas financeiras desonestas de muitas igrejas.
Neste ponto encontramos o papel das universidades confessionais. Uma instituição de ensino que se pauta pelos princípios da visão cristã de mundo poderá contribuir de diversas maneiras para que a corrupção seja pelo menos reduzida. Com relação às suas causas externas, deve incluir o ensino e a transmissão dos valores cristãos tais como honestidade, integridade, verdade, justiça e amor ao próximo. Somos responsáveis por uma boa mordomia dos recursos que Deus nos confiou.
Esse papel de integração da ética à academia é algo que vem sendo reconhecido até nas instituições de ensino superior sem características confessionais, por razões meramente realistas e práticas. Uma reitora, no contexto da crise europeia, que desde 2008 assola o velho mundo, chamou a atenção das universidades para a falta de ética e a aplicação deficiente de práticas saudáveis de negócios. Ela declarou que todos os operadores do sistema financeiro frequentaram os bancos universitários e provocou o incômodo questionamento: será que não falta maior ênfase na ética de negócios, em nossos currículos? Segundo a reitora, “as instituições têm que assumir a sua quota de ensinamento pela vivência de valores que devem reger uma sociedade de bem”.[2]
Nesse caminho, como instituição confessional, devemos ter um interesse redobrado sobre o entrelaçamento da ética com a formação acadêmica, como uma das armas contra a corrupção de nossa sociedade.
Com relação à causa interna, que é a corrupção da mente e do coração humanos, a instituição confessional cristã deve sempre lembrar aos seus alunos que somos responsáveis por nossos atos e que não podemos responsabilizar a sociedade, o governo e os outros pelos nossos desvios de conduta. Por fim, deve anunciar, sempre respeitando a consciência de todos, que Deus em Jesus Cristo nos oferece perdão pelos nossos desvios e uma mudança interior, dando-nos uma nova orientação e esperança na vida, tendo como alvo amar ao próximo e a Deus. Cultivamos uma expectativa realista de mudança sabendo que o nosso trabalho não é vão diante de Deus.
Terminando, o cristianismo reconhece que não é possível a existência de uma sociedade que seja completamente isenta da corrupção. A nossa esperança é o mundo vindouro, escatológico, a ser inaugurado com o retorno de Jesus Cristo, quando as causas da corrupção serão removidas para sempre. O que não significa que não devamos, com todas as nossas forças, lutar para que os valores do Reino de Deus sejam implantados aqui neste mundo, por meio de uma boa educação integral que contemple não somente a formação intelectual e profissional, como também a formação de cidadãos éticos e compromissados com os valores morais que servem de base para famílias e sociedades sólidas e justas.


[1] Este capítulo é baseado no texto da Carta de Princípios da Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2012, também da minha autoria.
[2] “As Universidades Têm Um Papel em Minimizar os Efeitos da Crise”, artigo/entrevista de Madalena Queirós, com a Reitora da Universidade de Aveiro, Helena Nazaré, de 17.02.2009, disponível em: http://economico.sapo.pt/noticias/as-universidades-tem-um-papel-em-minimizar-os-efeitos-da-crise_3843.html, acessado em 22.04.2009.
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