terça-feira, outubro 17, 2017

Augustus Nicodemus Lopes
CRISTIANISMO E UNIVERSIDADE (1)

Estou iniciando aqui no blog uma série de posts relacionados com a visão cristã de mundo e o ambiente da universidade. Essas postagens são compilações de palestras e devocionais proferidas durante o tempo em que servi na Universidade Presbiteriana Mackenzie, como Chanceler. Meu objetivo ao reuni-las aqui é oferecer material de fácil leitura que mostre como se pode tentar, na prática, uma integração da fé cristã na academia. É claro que estas palestras só puderam ser feitas numa Universidade de ponta e conceituada, como é a Mackenzie, por causa de seu caráter confessional e da abertura que existe nela para que todos os assuntos, temas e conteúdos que fazem parte da moderna academia sejam analisados à luz da visão cristã de mundo.

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Assim, nessas postagens, o leitor encontrará referências à ciência, tecnologia, meio-ambiente, responsabilidade social, pesquisa, política, sociedade, ética e sociedade feitas da perspectiva da fé cristã reformada.
Meu objetivo é também ajudar os cristãos que estão vivendo no ambiente da universidade, como estudantes ou professores, e que procuram ajuda para viver a fé cristã no ambiente acadêmico. Boa leitura!



A IMPORTÂNCIA DAS COSMOVISÕES 


“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Provérbios 4.23).
Uma das lições mais importantes que aprendi nos meus estudos para o doutorado em interpretação bíblica, com reflexos para minha compreensão da vida como um todo, foi que não existe leitura de um texto que seja absolutamente neutra e objetiva. Nisso me ajudaram Derrida, Foucault, Gadamer, Ricoeur e outros profetas e precursores das chamadas novas hermenêuticas.
Isso que é verdade quanto à leitura de textos também é verdade quanto à leitura da realidade. Todos nós enxergamos a vida através dos óculos formados por nossas experiências, nossos preconceitos e pressupostos e acima de tudo, nossas crenças.
Muitos autores contribuíram a derrubada do mito da neutralidade defendido no Iluminismo e que se tornou padrão na academia. Entre eles menciono o historiador da ciência Thomas Kuhn, cujo livro “A Estrutura das Revoluções Científicas” (1962) representa um marco nessa disciplina. O argumento de Kuhn, em linhas gerais, é que, ao contrário do que postulava o positivismo científico, os cientistas não são meras máquinas de análise e registro de informações – são pessoas de carne e osso, com sentimentos, emoções e intuições. Eles não registram passivamente suas observações, mas projetam ativamente as suas crenças. As suas experiências pessoais servem para formar os paradigmas, que são estruturas dominantes que organizam os experimentos que eles realizam.
Em suma, as revoluções científicas avançam, não quando surgem novas descobertas, as quais são incorporadas e absorvidas aos paradigmas dominantes – mas quando os paradigmas mudam. Com isso Kuhn destacou e firmou a importância dos paradigmas e dos pressupostos nas áreas do conhecimento. Ele valorizou as crenças e convicções das pessoas ao lerem e interpretarem a realidade ao seu redor.
É nesse contexto que falamos da importância e da legitimidade de uma visão de mundo (“cosmovisão”, Weltanschauung, termo usado primeiramente por E. Kant). Uma cosmovisão é uma maneira de ver o mundo de acordo com aquilo que se crê. De acordo com Ronald Nash, destacado filósofo cristão, em sua obra Questões Últimas da Vida (2008), existem cinco crenças mais importantes que definem a cosmovisão de alguém:
·      Deus – ele existe? Qual sua natureza? Há mais de um Deus?
·      Metafísica – qual o relacionamento de Deus com o universo? O universo existe? Qual sua origem?
·      Epistemologia – é possível saber, entender e conhecer? Existe verdade?
·      Ética – existem leis morais que regem a conduta humana? Elas são absolutas ou relativas?
·      Antropologia – o ser humano é apenas corpo ou materialidade, ou tem uma dimensão espiritual? Qual sua origem? Existe vida após a morte?
Aquilo que as pessoas acreditam sobre esses cinco pontos haverá de tingir os óculos com que elas enxergam e decifram o mundo ao seu redor, e haverá de influenciar de forma decisiva seu relacionamento consigo mesmo, com o próximo, com o mundo, em casa, no trabalho e na sociedade como um todo.
O livro de Provérbios já falava da importância do coração e da mente (leb em hebraico) para a compreensão da totalidade da vida (vide acima Provérbios 4.23). É nesse contexto que falamos da importância e da legitimidade de uma visão de mundo que parta dos valores teóricos e morais do cristianismo, e que faça parte dos paradigmas e matizes que orientam o labor acadêmico de uma universidade confessional.
Uma visão de mundo cristã como referencial na academia deveria levar em conta a existência de um Deus pessoal e sua ação na história, a revelação que ele faz de si mesmo na natureza e nas Escrituras judaico-cristãs. Deveria ver o ser humano como criado à imagem deste Deus e levar em conta a presença e a realidade do mal nesse mundo. Deveria enxergar o mundo e suas leis como expressão do caráter desse Deus, que é bondoso, justo e sábio.

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Visto que não existe neutralidade na academia, sempre teremos paradigmas que dependem de visões de mundo. Há muitas visões de mundo, como marxismo, humanismo, ateísmo, agnosticismo, materialismo, para nomear algumas. Se não podemos escapar de termos uma visão de mundo que norteie e influencie decisivamente o que fazemos na academia, que abracemos, então, em nossos labores a visão cristã de mundo. Além de permitir o diálogo com aquilo que comunga com as demais visões de mundo, ela tem a vantagem de ser aquela visão de mundo que primeiro ofereceu as condições para o surgimento da ciência moderna, como veremos noutros posts mais adiante.
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quinta-feira, setembro 28, 2017

Solano Portela

Meus livros, minha vida...

Este mês de setembro de 2017 marca um grande ponto de inflexão em minha vida. Depois de muita ponderação, resolvi doar minha biblioteca a uma instituição teológica de ensino. Nos últimos dois dias os laboriosos rapazes que vieram armados com boa disposição, caixas e uma van empacotaram e levaram cerca de 3.000 livros, representando 90% de tudo o que eu possuía até há pouco.

Tudo isso foi precedido por um incansável trabalho de arrumação, catalogação, rotulagem e triagem realizado por minha esposa e auxiliares, que levou dias. Com um misto de alívio, desprendimento e tristeza, ela cumpriu estoicamente essa tarefa. Em algumas noites, eu participava das avaliações e despedidas dos volumes que marcaram minha vida nesses setenta anos que completarei daqui a um mês. Em alguns momentos, eu expressava: “não quero mais olhá-los, pois todos são bons ou proveitosos. Até os ruins são bons, porque aprendi algo com eles, ainda que fosse como não abordar ou fazer as coisas”.

Retive uns poucos de valor inestimável, ainda que tenha doado livros antigos e raros e outros que foram contra as movimentações de um coração que dizia, “Fica com esse! Fica com esse”. Para outros, minha esposa dizia, “esses não vão contribuir muito...”. Mas eu insisti, “não, o acordado foi que iria ‘the good, the bad, and the ugly’; depois eles fazem a triagem do que desejam conservar”.

E nessa torrente avassaladora “quebra-coração”, foram teologias sistemáticas de Hodge até Berkhof; as obras completas de John Owen; a ISBE (International Standard Bible Encyclopedia); clássicos de Dabney, Warfield, Gill, Baxter; livros de Rushdoony, Schaeffer, Van Til, Van Riesen, Hebden Taylor; comentários profundos de Lensky Hendriksen, Barnes, Leopold; obras de autores contemporâneos, como Gruden, Horton, Murray; trabalhos maravilhosos de importantes teólogos e apologetas do exterior e de conhecidos autores nacionais, de igual peso e teor. Livros familiares, de caminhos muitas vezes trafegados, e outros que pareciam selva fechada, ainda a desbravar. Predileções renovadas, na medida em que eram folheados novamente, e outros que despertavam centelhas de curiosidade sobre o que as páginas preciosas, que nunca mais serão por mim perscrutadas, teriam para revelar, sorvido que fui pelas obrigações intensas que me impedem uma leitura maior.

Por que doá-los, se parte tanto o coração? Aproxima-se a cada dia a data na qual, algum dia, serei removido do contexto e circunstâncias atuais, quer geograficamente para outras paragens, quer transcendentalmente para onde os anos da velhice naturalmente leva a todos (no meu caso, para a glória eterna). Na realidade, é certo que qualquer uma dessas duas possibilidades se apresenta com lampejos de muita esperança, confiança, descanso e conforto na soberania divina. Na realidade, a qualquer momento, e isso é válido para velhos ou novos, a jornada nesta vida pode ser interrompida por uma enfermidade, um acidente, pela violência que reina nesse mundo tenebroso, ou por qualquer outra situação, sempre debaixo do soberano plano divino e da boa mão de Deus. Mas meus livros cumpriram sua função nessa ligação de intensa amizade e apreço comigo.

A quem doá-los? Meus três filhos e minha filha estão espalhados pelo mundo, graças ao bom Deus, cada um servindo a Ele em diferentes situações, com suas famílias. Inviável deixá-los com eles. Além disso, nesta era de Amazon, Kindle, eBooks, Logos, etc., muitas bibliotecas pessoais são supridas por essas vias, ainda que eu insista que nós, seres humanos, somos essencialmente analógicos e nada substitui a interatividade que temos com um livro, quando o manuseio é real e não digital. Durante algum tempo pensei em fazer uma maratona de doações pessoais, a seminaristas e pastores. Ainda que eu tenha feito isso diversas vezes, os problemas logísticos e de falta de tempo para continuar com a prática, demonstraram a inviabilidade desse caminho. Cheguei à conclusão que meus livros estariam mais bem acomodados e com a possibilidade de beneficiar mais vidas se viessem a ampliar a biblioteca de uma instituição de ensino teológico, ainda em formação. Procuramos uma que estivesse mais próxima à nossa residência, desvencilhei-me das amarras, fechei os olhos, tampei o nariz e mergulhei no escuro.

Por que “meus livros, minha vida”? Porque além deles terem contribuído significativamente para minha formação e elucidado tantos pontos importantes da Palavra de Deus, cada um deles tem um significado maior na sua origem, no seu texto, nas suas páginas iniciais, nas marcações que receberam – com frases e lembretes, ou apenas com um sutil sublinhar do que mais importava. “Este aqui foi quando conheci minha esposa; esses outros, foram presentes do meu sogro; veja esta anotação – eu estava estudando o assunto e derivei várias palestras desse tópico; este é abominável, mostra como o bom pensar é algo em extinção; este eu recebi do autor; não posso enviar esses, ainda estou estudando isso e planejo escrever sobre a matéria; este foi do meu filho e ele recebeu de presente daquela senhora, que deixou para ele pouco antes de falecer...”. E assim os momentos iam se sucedendo, na medida em que eu folheava apenas alguns dos que marcaram cada ponto, cada evento, cada pessoa, cada autor que fez parte de minha vida. Além disso, fico pensando que mesmo antes de eu nascer alguns desses livros já tinham sido separados por meus pais para que me acompanhassem por longos anos.

Muitos foram doados com as dedicatórias originais dos autores. Tive conflitos, se eu deveria doar esses também. Alguns desses autografados vieram de autores amigos! Mas era inviável conservá-los, uma vez tomada a decisão maior. Resta me jogar nos braços da misericórdia e boa vontade desses, que tão gentilmente me enviaram suas obras, com um sincero pedido de perdão. Tenham certeza de que os presentes foram muito apreciados, e a doação em momento algum representa desprezo ou descaso pela dádiva gentil das preciosidades de suas lavras. Apenas seguirão o fluxo e propósito comum, com os demais, de abençoarem a muitos, da mesma forma como me abençoaram nesses anos em que ficaram em minha companhia. Essa é a petição que faço a Deus, bem como que me devolva a alegria momentaneamente suprimida pela dor da separação.

Solano Portela, 27.09.2017


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quinta-feira, junho 29, 2017

Solano Portela

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sexta-feira, abril 14, 2017

Solano Portela

Por que a Páscoa?

Na Páscoa, procuramos relembrar o sacrifício de Jesus Cristo na Cruz do Calvário e a sua gloriosa ressurreição, vencendo a morte e assegurando a salvação para o seu povo. É verdade que a páscoa é, na realidade, um feriado judaico e não cristão. Remonta à lembrança de como, no Egito, o Anjo passou “por cima” (de onde vem o nome Páscoa) das casas dos Israelitas, poupando os primogênitos que viviam naquelas residências em que os umbrais das portas tinham o sangue do cordeiro espargido sobre eles. O significado e lembrança era, portanto, de libertação, de salvação; No entanto, a ocasião está intimamente ligada à celebração da Santa Ceia e nos remete à morte e ressurreição de Cristo, ao derramar do seu próprio sangue, que cobre e salva o seu povo, e às promessas de sua segunda vinda.

É nesse sentido que a Páscoa tem feito parte de calendários cristãos de um grande segmento do povo de Deus, inclusive de reformadores, como Calvino. Em Genebra os magistrados determinaram que a Ceia fosse celebrada no Natal, na Páscoa, no Pentecostes e na Festa das Colheitas [Vd. John Calvin, “To the Seigneurs of Berne”, John Calvin Collection, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 1998), nº 395, p. 163. Vd. também: William D. Maxwell, El Culto Cristiano: sua evolución y sus formas, p. 141].

Menção à Páscoa é também feita em outros documentos reformados como no Catecismo de Heidelberg (Pergunta 45) e na decisão do Sínodo de Dordt (1578), onde lemos: “... considerando que outros dias festivos são observados pela autoridade do governo, como o Natal e o dia seguinte, o dia seguinte à Páscoa, e o dia seguinte ao de Pentecostes, e, em alguns lugares, o Dia de Ano Novo e o Dia da Ascensão, os ministros deverão empregar toda a diligência para prepararem sermões nos quais eles, especificamente, ensinarão à congregação as questões relacionadas com o nascimento e ressurreição de Cristo, o envio do Espírito Santo, e outros artigos de fé direcionados a impedir a ociosidade”.

Em adição a essa questão histórica, a celebração da Páscoa tem fornecido aos evangélicos oportunidades para a veiculação da mensagem cristã, mencionando a morte e a ressurreição de Cristo, em ações de evangelização e através de mensagens cantadas.

É verdade que a época é também caracterizada por diferentes símbolos, guloseimas e celebrações seculares, que nada têm a ver com a vida, morte e ressurreição de Cristo. Como cristãos, devemos ter uma filosofia de vida (uma cosmovisão) pela qual o mundo e as realidades espirituais são compreendidas; uma visão de vida sempre firmada na revelação especial – a Palavra de Deus. Nesse sentido, devemos procurar nos divorciar do apoio aos apelos consumistas (nessas e em outras datas) e de simbologias que podem ser aberrantes, ainda que tradicionais.

Entendendo esta época e ocasião biblicamente, no espírito da Teologia da Reforma, celebremos com alegria a Ressurreição de Cristo; a morte da morte, na morte de Cristo! Feliz Páscoa!
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quarta-feira, março 22, 2017

Solano Portela

Perdemos a guerra cultural?

Solano Portela

Uma das questões menos compreendidas nas últimas décadas é o impacto do cristianismo na civilização ocidental. Pessoas simplesmente assumem valores que conservam a sociedade coesa, como se sempre tivesse sido assim e como se isso fosse continuar para sempre. Crentes se alienam em exercícios semanais de devoção e excitação espiritual com poucos reflexos morais e nas atividades do dia a dia. Vivem em staccato, de domingo a domingo, ansiando pelos ajuntamentos, sem serem verdadeiramente sal da terra e luz do mundo. Esquecem-se das lições da história, de que a Reforma do Século 16 tirou a civilização ocidental das trevas características da idade média, com a sua mensagem e influência.

Descrentes querem viver a vida moral dissoluta, mas dentro de uma estrutura da sociedade que garanta sua segurança, seus bens, seu progresso profissional, sua voz de reclamar, de reivindicar, de usufruir do avanço da ciência e dos bens de consumo, de desfrutar as benesses do “capitalismo”, sem se aperceberem que tais “direitos” vieram exatamente porque a sociedade ocidental, ou a cultura judaico-cristã influenciou a construção dessa sociedade em que vivemos e na qual estamos acostumados a coexistir. Estão cegos quanto ao obscurantismo que impera nas regiões onde a influência do cristianismo cessou de existir, ou onde ainda não chegou. Não enxergam os exemplos presentes e que a norma, para uma humanidade caída em violência e pecado, é a desvalorização da vida que se observa onde impera o islamismo, ou o hedonismo cruel das ditaduras despóticas que adoram algum “líder supremo”, que assim se autoelege.

Na medida em que valores cristãos vão sendo ridicularizados e descartados essa sociedade vai se fragmentando cada vez mais. Não é surpresa para ninguém que a falta de ênfase primária à questão de segurança tem levado à criminalidade desenfreada (pelos valores cristãos, este seria o propósito principal do governo, segundo Romanos 13.1-7). A ignorância do valor da honestidade (pelos valores cristãos, a cobiça é condenada) permeia não somente os políticos e empresários corruptos, mas o dia a dia das pessoas, que também querem levar vantagens indevidas. O descaso pela instituição do matrimônio (pelos valores cristãos, é a união entre um homem e uma mulher), tem desfigurado a célula mãe da sociedade e desnudado um futuro grotesco onde o comportamento pecaminoso é glorificado e elevado como expressão máxima da liberdade individual, que se coloca acima de qualquer padrão ou princípio. O desrespeito à propriedade (pelos valores cristãos, o mandamento “não furtarás”, continua válido, como os demais que regulam as relações entre os semelhantes), tem levado a protestos ou reivindicações com quebra-quebras, invasões, apropriações e espoliações do que é alheio.

Nesse cenário, algumas vozes, conscientes dos benefícios de uma sociedade firmada em cima de princípios cristãos, têm proclamado que estamos em outra era. Devemos mesmo é esquecer essa sociedade que conhecemos e admitir que perdemos a guerra cultural. O mal venceu. A situação não vai melhorar e estamos irremediavelmente fadados ao ostracismo, à rejeição, ao ridículo e até à extinção como tribo defensora de valores e princípios ultrapassados. Nem todos, mas muitos evangélicos, desde os rincões mais arminianos até os bolsões conhecidos como reformados, têm abraçado esse entendimento.

O que fazer, então? A escritora Leah Farish[1] aponta algumas respostas que têm surgido de autores fora do campo evangélico. O russo-ortodoxo Rod Dreher escreveu um livro intitulado The Benedict Option (A Opção Benedito), que vem causando furor e muita discussão, até em meios reformados. Nesse livro, analisando a sociedade norte-americana, ele aponta a perda inexorável dos limites de civilidade e a crescente hostilidade aos princípios cristãos, de tal maneira que não há mais clima de diálogo, promoção ou aprendizado dos valores cristãos. A solução, para aqueles que ainda presam esses valores, seria se fecharem em comunidades nas quais esses princípios pudessem ainda ser observados. Um outro autor, desta feita católico romano, Alasdair McIntyre, também tem ideias semelhantes e advoga essa clausura de autopreservação para que essa nova idade negra, na qual reinarão bárbaros filosóficos, possa ser atravessada.[2]

As referências da Opção Benedito, são, em parte, a pontuações feitas pelo atual Papa[3] (Benedito, ou Bento XVI). No entanto a lembrança é levada, mais especificamente, ao Benedito (ou Bento) do 6º Século d.C. (480-547 – não confundir com o Benedito do século 16, 1526-1589), quando os cristãos fugiram dos bárbaros e se agruparam no deserto, carregando consigo o germe redentor da civilização que estava em perigo. A referência é que a barbárie demanda o retorno a um isolamento em mosteiros.

Mas será que essa análise está correta? Sem descartar a precisa visão dos problemas filosóficos, éticos e comportamentais que nos assolam, as soluções apresentadas não parecem se harmonizar com a visão de uma compreensão bíblica adequada, resgatada pela teologia da Reforma do Século 16. A Bíblia não ensina o monasticismo como solução à pecaminosidade do mundo (Assim orou Jesus: “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal”, João 17.9), mas o envolvimento firmado na verdade para que sejamos “sal da Terra” (Mateus 5.13), preservando a sociedade na qual vivemos; e “luz do mundo” (Mateus 5.14); luz no meio das trevas, apontando os caminhos e revelando a iniquidade pelo contraste com a verdade proclamada.

Com isso parece concordar Leah Farish, que diz, no artigo já citado, “a Opção Benedito contrasta com as raízes da fé reformada”! As 95 teses de Lutero foram um manifesto explosivo contra a cultura reinante; Calvino lutou para reformar o pedaço de civilização sobre o qual tinha autoridade e sua influência sobre a cultura do mundo ocidental é imensurável. Pode haver alguma validade na sugestão dos crentes verdadeiros se agruparem, em reflexão, para estudarem a Palavra e delinearem estratégias sobre a batalha na qual já estamos envolvidos, mas nunca recorrer à formação de um gueto cristão. Leah Farish relembra que os Judeus, na Polônia, inicialmente ficaram satisfeitos em serem colocados em comunidades reclusas, os guetos. Afinal, iam poder viver em paz, sem perseguição e praticar sua religião. Mas, o extermínio foi o passo subsequente.

Como Paulo, reivindiquemos nossa “cidadania romana”, e proclamemos o que temos de proclamar!



[1] Artigo postado no site da World Reformed Fellowship (WRF): Is The Benedict Option an Option?, disponível em: http://wrfnet.org/articles/2017/03/wrf-member-leah-farish-asks-benedict-option-really-option#.WNJ8rYWcGP8
[3] Por exemplo: “Estamos nos movendo em direção a uma ditadura do relativismo, que não reconhece nada como certo e cujo objetivo supremo é o ego e os desejos de cada um”, citado em: http://www.catholic.org/news/national/story.php?id=34057
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quinta-feira, agosto 18, 2016

Solano Portela

Podemos Perder a Salvação em Cristo?

Hebreus 6.4-8

Uma pessoa me perguntou se Hebreus 6.4-6 anularia a possibilidade de algum ex-cristão arrependido voltar a trilhar os caminhos do Senhor? A dúvida era: “A quem este trecho se refere?”. Uma outra questão, que surge com este texto, é a possibilidade de perda da salvação. Certamente já ouvimos muitas pessoas afirmarem que podemos perde-la. Na realidade, alguns chamam a certeza da salvação, “o orgulho dos Crentes”.

Essa noção está presente em algumas denominações de orientação teológica arminiana. Vários valorizam a manutenção de uma insegurança por “necessidade de preservar a vida cristã”.  Em meu entendimento, e assim ensina a teologia da Reforma, isso representa uma falta de compreensão do que a Bíblia ensina sobre a doutrina da salvação. No entanto, alguns reformados se surpreendem quando ouvem que a Confissão de Fé de Westminster apresenta a “certeza da salvação” como sendo algo adicional e não essencial à essência da fé real (CFW, Cap. 18, 3 e Catecismo Maior, Perguntas 81 e 172 do Catecismo Maior da CFW). A questão, então, não é se existe ou não “a certeza subjetiva”, ou pessoal, mas se o verdadeiramente salvo pode perder essa salvação. Afinal, um dos pontos principais da teologia bíblica, e da Reforma, é a Perseverança dos Santos.

Textos como Hb 6.4-6 podem nos deixar um pouco confusos, se forem estudados superficialmente, fora do contexto geral da Palavra de Deus. Precisamos, portanto, procurar entender algumas passagens bíblicas que parecem ir em sentido contrário à doutrina da Perseverança dos Santos.

1.     Duas passagens difíceis: Hebreus 6.4-6 e 2 Pedro 2.20-22 são dois trechos de difícil compreensão, mas analisemos cada um deles.

Alguns “provam o dom celestial” e caem, nos diz Hb 6.4-6: (4) É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, (5) e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro,(6) e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia.

Alguns “escapam” do mundo, “conhecem”, mas voltam ao erro, nos diz 2 Pe 2.20-22: (20)  Portanto, se, depois de terem escapado das contaminações do mundo mediante o conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, se deixam enredar de novo e são vencidos, tornou-se o seu último estado pior que o primeiro. (21) Pois melhor lhes fora nunca tivessem conhecido o caminho da justiça do que, após conhecê-lo, volverem para trás, apartando-se do santo mandamento que lhes fora dado. (22) Com eles aconteceu o que diz certo adágio verdadeiro: O cão voltou ao seu próprio vômito; e: A porca lavada voltou a revolver-se no lamaçal.

2.     As Exposição de João sobre o assunto – Precisamos estar cientes da exposição sobre a salvação que o apóstolo João faz no capítulo 10.26-28, do seu Evangelho e em suas três cartas universais, antes de abordar estes versos difíceis.

O Espírito Santo moveu João a registrar nesse trecho (João 10.26-28) o fundamento da doutrina da Perseverança dos Santos - “Ninguém as arrebatará”: (26) Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. (27) As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. (28) Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. Somos seguros nas mãos de Cristo não por nosso próprio poder, mas pelo poder de Deus. Salvação não é apenas um ato de vontade nossa, mas a vontade é um reflexo e resposta à obra de Cristo na Cruz; de sua vitória sobre a morte, na ressurreição; e ao chamado eficaz do Espírito Santo em nossos corações.

Na sua primeira carta, João deixa claro que existem pessoas agregadas ao povo de Deus, mas que nunca fizeram parte dos verdadeiramente salvos pelo poder de Cristo. “Saíram de nós, mas não eram dos nossos”, diz ele. Em 1 João 2.18-20, temos: (18) Filhinhos, já é a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também, agora, muitos anticristos têm surgido; pelo que conhecemos que é a última hora. (19) Eles saíram de nosso meio; entretanto, não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos. (20) E vós possuís unção que vem do Santo e todos tendes conhecimento.

Em sua segunda carta João fala daqueles que não se prendem à doutrina de Cristo. Ele se referia à pessoa que “ultrapassa a doutrina” e diz que esse não tem Deus. Em 2 Jo 9, ele escreve: Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem tanto o Pai como o Filho. Entendemos que esse “ultrapassar” é o mesmo curso abordado por Paulo em Gálatas 1.8. Significa “ir além”, pregar um “outro evangelho”. A esses Paulo reserva palavras duras. Mesmo estando no meio do Povo de Deus, Paulo alerta seus leitores contra eles, e conclui que qualquer um que “...vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema”. Ou seja, seja amaldiçoado aquele que ultrapassa a doutrina.

Na terceira carta, João chama atenção para o fato de que uma vida realmente transformada, realmente salva, não permanece no pecado. Aqueles que dizem ser salvos, mas não demonstram transformação de vida (e, infelizmente, sempre existem esses no meio do Povo de Deus), nunca viram a Deus. Em 3 João 11, ele fala dessa permanência na prática do mal:  Amado, não imites o que é mau, senão o que é bom. Aquele que pratica o bem procede de Deus; aquele que pratica o mal jamais viu a Deus.

3.     O contexto das passagens difíceis. Mas voltemos às nossas passagens difíceis, agora examinando o contexto imediato no qual elas são encontradas.

Hebreus 6.4-6, não pode ser lido isolado dos versos 7 e 8. Estes versos dizem: (7) Porque a terra que absorve a chuva que freqüentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus;(8) mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada.

Vemos nesses dois versos a harmonia do texto em Hebreus, com a parábola do semeador, encontrada em Mateus 13.18-23. O v. 22 é de especial importância. O trecho, em Hebreus, não está falando dos verdadeiramente salvos, mas dos semeados em espinhos. Eles recebem a chuva, igual à que cai na terra fértil, ou seja, “provam o dom”, no sentido de que são participantes das bênçãos, mas são sufocados pelos cuidados do mundo. Muitos aparentam seguir o evangelho; fazem parte dos ajuntamentos e atividades das igrejas; mas o coração não está regenerado. O texto em Hebreus não fala em “perda da salvação”, nem em impossibilidade de um crente cair em pecado e não ter condição de se arrepender, mas daqueles que demonstram, ao longo do tempo, que nunca foram convertidos.

Semelhantemente, 2 Pe 2.20-22, deve ser lido a partir do verso 9. Os que “escapam” do mundo conhecem, mas voltam ao erro, são contrastados com os “piedosos”. O texto de Pedro diz: (9)Porque o Senhor sabe livrar da provação os piedosos e reservar sob castigo os injustos, para o dia do juízo; (10) especialmente aqueles que, seguindo a carne, andam em imundas paixões e menosprezam qualquer governo. Atrevidos, arrogantes, não temem difamar autoridades superiores, (11) ao passo que anjos, embora maiores em força e poder, não proferem contra elas juízo infamante na presença do Senhor. (12) Esses, todavia, como brutos irracionais, naturalmente feitos para presa e destruição, falando mal daquilo em que são ignorantes, na sua destruição também hão de ser destruídos, (13) recebendo injustiça por salário da injustiça que praticam. Considerando como prazer a sua luxúria carnal em pleno dia, quais nódoas e deformidades, eles se regalam nas suas próprias mistificações, enquanto banqueteiam junto convosco; (14) tendo os olhos cheios de adultério e insaciáveis no pecado, engodando almas inconstantes, tendo coração exercitado na avareza, filhos malditos; (15) abandonando o reto caminho, se extraviaram, seguindo pelo caminho de Balaão, filho de Beor, que amou o prêmio da injustiça (16) (recebeu, porém, castigo da sua transgressão, a saber, um mudo animal de carga, falando com voz humana, refreou a insensatez do profeta). (17) Esses tais são como fonte sem água, como névoas impelidas por temporal. Para eles está reservada a negridão das trevas;(18) porquanto, proferindo palavras jactanciosas de vaidade, engodam com paixões carnais, por suas libertinagens, aqueles que estavam prestes a fugir dos que andam no erro, (19) prometendo-lhes liberdade, quando eles mesmos são escravos da corrupção, pois aquele que é vencido fica escravo do vencedor.

O trecho claramente fala de ímpios. Eles conheceram o caminho da justiça, porque aderiram fisicamente à igreja, relacionaram-se com o Povo de Deus, ouviram incontáveis exposições da Palavra. No entanto, em seu espírito e em suas obras, nunca experimentaram conversão. Por isso, nos versos 20 a 22, eles são comparados a porcos que voltam ao vômito. Viviam em um clima limpo, eivado de ensinamentos proveitosos à vida. Levam sobre si a condenação de rejeitarem a tudo isso e ao Senhor da Glória.

Conclusão:
A Palavra de Deus deixa claro, em muitas passagens, que somos salvos para sempre. Por isso Paulo ensina em Romanos que Aquele que iniciou a obra em nós é poderoso para completá-la (Filipenses 1.6). Obviamente, isso não é encorajamento para o pecado, mas motivo de ações de graças – somos salvos pelo poder de Deus e preservados por este  mesmo poder, não por nossas frágeis forças.

Os dois trechos que examinamos ainda que difíceis, são entendidos pelas explicações de João e pelo contexto imediato das passagens. Devemos confiar no preservador da nossa salvação e nunca devemos nos abalar ou permitir que dúvidas sejam colocadas em nossa cabeça.


Solano Portela
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